Sunday, February 09, 2003

A Educação do Estóico, Barão de Teive

a participação deste heterónimo na vasta obra de Fernando Pessoa é curta - mas provavelmente decisiva para avaliar o papel da heteronímia na expressão literária do poeta.
o Sr. Álvaro Coelho de Athayde, 20º Barão de Teive e fidalgo aristocrata, escreve os seus primeiros textos a cerca de 1928. o seu único manuscrito, A Educação do Estóico, (que inclui em apêndice os textos O Duelo, Three Pessimists, Leopardi e No Jardim de Epicteto) surge como consequência de uma decisão para a morte, espécie de nota de suicídio.

estou liberto e decidido. matar-me: vou agora matar-me. [...]
estas páginas não são a minha confissão senão a minha definição. sinto, ao começar a escrevê-la, que a poderei escrever com algum modo de verdade.


logo ao início o Barão anuncia a sua morte, assim como identifica esta como a única razão da sua escrita. depois, durante talvez a maior parte da obra, surge a sua personalidade-paradoxo: um filósofo natural, mas insustentavelmente racional. e ao não conseguir viver racionalmente, apercebe-se de que o suicídio é a saída que lhe é imposta.
então, escreve.
antes que desapareça, escreve.
devaneia de forma filosófica e quase abstracta sobre realidades concretas que nada têm a ver com ele; deixa até transparecer um certo Oscar Wilde na forma como encara o mundo e tudo aquilo que está já pressuposto. mas não abandona nunca a depressão, a fraqueza e a nostalgia das coisas que recorda antes de um último adeus.
tenho todas as condições para ser feliz, salvo a felicidade.

o barão sofre por uma impossibilidade de não sofrer, e o leitor sofre por sentir nas suas palavras que o único sentido da sua existência é essa morte adiada para a qual ele nasceu.
o seu passado é levemente reconstruído, quer através de discurso directo, quer através de características atribuídas pelo próprio Pessoa: sabe-se que o Barão não tinha a perna esquerda e tinha já tido a oportunidade de casar; mas sente-se que todos esses pormenores são criados em função da sua morte, como um cenário que é erguido atrás de si quando surgem os seus 15 minutes of fame, o discurso estóico de quem decide morrer.

quando comecei a ler e até relativamente a meio, a sensação que tinha era a de uma certa incoerência; parecia-me um desabafo isolado do mundo pessoano que conheço, um desabafo demasiado direccionado - até porque a linguagem do Barão é incrivelmente sóbria e lúcida - mas à medida que chegava ao fim parecia-me cada vez mais um heterónimo criado para um momento e não para um carácter. até o subtítulo, a impossibilidade de fazer arte superior, parece apontar para uma rendição a algo, em última análise: à vida.
na edição da Assírio & Alvim, Richard Zenith aponta para a frustração sexual como um dos principais motivos para o suicídio do Barão (e para a crítica acentuada a Leopardi, Vigny e Antero, «os três grandes poetas pessimistas»).
contudo, eu discordo profundamente dessa vertente explicativa. custa-me conceber que um homem que carrega o fardo de uma lucidez e racionalidade extremas possa atirar-se para o suicídio por uma razão sexual ou afectiva; afinal, essas coisas doem emocionalmente e não racionalmente.
não vejo motivo óbvio para o suicídio do Barão. vejo sim, o suicídio como o motivo da sua (in)existência. criado para expurgar o sofrimento moral de Pessoa, o Barão de Teive vai morrer em nome do suicídio que Pessoa não pode cometer, vai ser a criação catártica que o permite manter-se a si - e aos afins - suficientemente sãos para sofrer sem morte.